Carta Pastoral do Arcebispo Sobre as eleições

CARTA PASTORAL SOBRE AS ELEIÇÕES 2020

“A política é, antes de tudo, serviço, não de ambições e interesses pessoais ou de prepotência de facções nem de autocracia e totalitarismos. Sabemos que ‘Jesus veio para servir e não para ser servido’. Seu exemplo deve ser seguido também pelos políticos. Trata-se de um serviço, que, às vezes, requer sacrifício e dedicação dos políticos, a ponto até de serem considerados ‘mártires’ do bem comum”. (Papa Francisco) Aos Padres, Diáconos, Religiosos e Religiosas, Agentes Pastorais e todo o Povo de Deus desta Arquidiocese de Natal: Queridos irmãos e amadas irmãs, Vivemos, nesta semana, os últimos dias da Campanha Política que nos apresenta candidatos e candidatas para os cargos de Prefeitos, Vice Prefeitos e Vereadores dos nossos municípios brasileiros. Como bem nos exorta o Santo Padre: “A política não é a mera arte de administrar o poder, os recursos ou as crises. A política é uma vocação de serviço”. Conclamamos, assim, a todos e a todas para que, atentos às propostas e aos programas de governo, possamos escolher aqueles e aquelas que vão prestar este serviço em nossas comunidades e municípios e, conscientes do seu papel e da sua missão, construam mecanismos e políticas capazes de promoverem o bem comum e a paz entre todos (as). Sendo pois, a Igreja, a comunidade dos discípulos e das discípulas de Jesus de Nazaré que lutou e instaurou o Reino de Deus entre nós “para que tenhamos vida e vida em abundância”, não podemos deixar passar este momento tão importante de nossa história sem que não déssemos uma palavra de ânimo e de esperança, mas também de exortação, tanto aos candidatos (as), quanto aos eleitores (as). A Política diz respeito à esfera pública, onde se deve desenvolver ações que visem a promoção da justiça e da paz para que as pessoas possam viver com dignidade. O estado de direito/democracia como forma de organização política nos torna responsáveis por este processo. Cada eleito recebe dos cidadãos o seu poder para o exercício do cargo que lhe foi conferido pelo voto, para que o exerça com honestidade e respeito, procurando promover o bem de todos. A Igreja não tem opção partidária. Cada fiel tem a liberdade de fazer a sua escolha. Porém, cabe à Igreja indicar princípios para promover o discernimento e, assim, o cidadão (ã), agindo com consciência, possa escolher bem seus representantes. Neste sentido, exortamos: a) A Política tem a função de promover a justiça e o bem comum. Por isso a Igreja reconhece que ela é a forma mais sublime de exercer a caridade, que não deve se confundir com ‘caridade-esmola’. A caridade política se confunde com a ‘caridade justiça’, como nos ensina a própria Igreja na sua Doutrina Social; b) Através do voto como um direito e um exercício de cidadania, definimos os rumos e os caminhos da sociedade. Daí a importância do voto. Mas, para o exercício pleno da cidadania, não basta apenas o voto. O cidadão tem que participar, inclusive acompanhando os eleitos, cobrando, exigindo que estes exerçam o seu papel de promotores do bem comum, da justiça, da manutenção da democracia e dos direitos de todos, sobretudo dos mais pobres e vulneráveis; cada cidadão tem a obrigação e o direito de monitorar aqueles e aquelas que forem eleitos para o pleito dos próximos 4 anos; c) As propostas políticas que cada um(a) candidato(a) apresenta por ocasião da campanha eleitoral devem ser bem avaliadas pelos cidadãos, ou seja, no tocante à sua adequação à realidade local. Diante de cada promessa eleitoral é preciso avaliar se aquela pessoa tem capacidade para cumprir o que está prometendo e se aquilo que promete faz parte da atribuição do cargo para o qual pretende ser eleito; d) Em tempos difíceis de tentativas de cerceamento das liberdades democráticas, é importante que o eleitor analise as posturas dos seus candidatos. O compromisso com a democracia e a liberdade de expressão é fundamental tanto para o candidato quanto para o eleitor. A Democracia requer respeito e diálogo constante com quem pensa e se expressa distintamente. Uma pessoa sectária, arrogante, que quer resolver os problemas da sociedade pela força torna-se um perigo à democracia e não merece o voto de um cidadão (ã) consciente; e) Aqueles e aquelas que se assumem como cristãos (ãs) e optam em servir ao povo de Deus no mundo da política, façam isso com amor, respeito, compromisso com a verdade, não espalhando notícias falsas (fake news) para prejudicar os outros candidatos e ou partidos. É necessário verificar sempre as fontes das notícias, denunciando-as, quando atestadas mentirosas; f) Cada candidato (a), sobretudo o que se assume como cristão (ã), deve ter clareza da sua missão na defesa e na promoção da vida de todos (as) os seus munícipes, em todos os aspectos de sua existência, desde a concepção à sua fase final; g) É importante que cada eleitor observe se os seus candidatos agem com consciência já em suas ‘promessas de campanha’ em favor do direito e da justiça dos mais fracos e abandonados e se assumem compromissos com as lutas populares por Terra, Teto e Trabalho, tema tão caro à Igreja do Brasil na sua VI Semana Social, orientada pelo Papa Francisco. Não podemos esquecer também das recomendações do Santo Padre na sua Encíclica Laudato Si, quanto aos direitos da ‘Mãe Terra’, o cuidado com a “Casa Comum’ que se expressam no cuidado com o meio ambiente, com o direito à cidade, com a sustentabilidade da vida do planeta a partir da nossa realidade local; h) Por último, recomendamos aos fiéis que procurem votar com responsabilidade em pessoas que apresentem projetos que revelam compromisso com a verdade, que sejam honestas, que tenham uma experiência de vida em grupos e em partidos que defendem o direito ao trabalho digno, ao salário justo, à educação pública de qualidade, à assistência social aos mais pobres e vulneráveis, à segurança alimentar e nutricional e, sobretudo, à saúde pública e gratuita. Que Maria, Mãe amável e carinhosa, que aqui em nossa Arquidiocese é Nossa Senhora da Apresentação, cuja festa esses dias estamos a celebrar, seja sempre nossa intercessora junto ao seu Filho, Jesus, nos abençoando e nos consolando em nossas necessidades e aflições, sobretudo nestes tempos de pandemia, de violência e de morte.

Natal-RN, 10 de novembro de 2020. Dom Jaime Vieira Rocha Arcebispo Metropolitano de Natal

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